[OFF TOPIC] A estatística das pesquisas eleitorais
Estamos em época de eleições presidenciais no Brasil e quem não está preocupado com a situação provavelmente não entendeu bem o contexto.
Dito isso, quero trazer algumas contribuições para gente pensar as pesquisas eleitorais. Esse texto é o primeiro de uma série de publicações que pretendo entregar nos próximos dias.
- O que são pesquisas eleitorais?
Pesquisas eleitorais são tipos particulares de pesquisas de opinião pública em que o foco reside na escolha de um candidato (eventualmente algumas pesquisas eleitorais inserem blocos de percepação, tais como rejeição de governos em exercício, mas este não é nosso objetivo aqui).
Essa escolha pode ser orientada (chamamos de pesquisa estimulada) ou aberta (chamamos espontânea). Na pesquisa estimulada, o participante recebe uma lista de candidatos e faz uma escolha. Na pesquisa espontânea, ele é indagado abertamente sobre sua opção de voto, sem uma lista prévia.
- Como as pesquisas são feitas?
As pesquisas estão organizadas em torno de uma metodologia e um tratamento estatístico. Essa organização é necessária por dois motivos principais: (i) em primeiro lugar, para garantir a conformidade legal; (ii) em segundo lugar, para garantir que os resultados encontrados na pesquisa representem a população brasileira como um todo.
Quanto à conformidade, a Lei nº 9.504/1997, chamada Lei das Eleições, estabelece regras próprias para o registro e realização das pesquisas eleitorais. O registro deve conter informações sobre:
- quem contratou a pesquisa;
- valor e origem dos recursos;
- metodologia e período de realização;
- plano amostral e ponderação quanto a sexo, idade, grau de instrução, nível econômico e área física, intervalo de confiança e margem de erro;
- sistema interno de controle e verificação, conferência e fiscalização da coleta de dados e do trabalho de campo;
- questionário completo aplicado ou a ser aplicado;
- nome de quem pagou pela realização do trabalho e cópia da nota fiscal.
Quanto à garantia de que encontremos esses resultados, devemos entender alguns pontos importantes. Como a população (a totalidade dos eleitores) é consideravelmente grande, dificultando e encarecendo o trabalho de coleta e análise dos dados, os pesquisadores trabalham, em geral, com amostras desta população. Há um cálculo específico para se chegar a um número adequado de pessoas participantes que represente nossa população. No entanto, como a própria legislação informa, esse plano amostral deve considerar os segmentos que compõem a sociedade: se nós temos uma amostra de 1.000 (mil) pessoas, é fundamental que tenhamos uma segmentação adequada por sexo, região, idade, grau de instrução e nível econômico. A ideia, aqui, é que os resultados da pesquisa permitam estimar resultados para toda a população. Importante destacar, portanto, que a qualidade da pesquisa não se restringe ao tamanho da amostra, mas também da forma como ajustou os segmentos.
Para garantir essa estimativa, temos a ideia de margem de erro e o intervalo de confiança (IC). A margem de erro informa a variação aceitável da amostra (positiva ou negativa). Em outras palavras, é possível que, ao extrapolar os resultados para a população, encontremos resultados dentro da margem de erro. Uma pesquisa com margem de erro de 2% indicando uma preferência de 45% para determinado candidato informa que é aceitável um resultado final entre 43% e 47%.
O intervalo de confiança (IC) representa a probabilidade de que a gente encontre resultados na população semelhantes à amostra. Ou seja, se nós temos um IC = 0.95%, então é correto supor, com 95% de confiança, que nosso resultado ocorrerá conforme previsto.
- Algumas divagações
Tentei apresentar um caminho para interpretarmos os resultados de uma pesquisa eleitoral em um ponto específico do tempo. Não tratei de pesquisas de aprovação (aquelas que buscam identificar aprovação/rejeição do governo) nem de como as pesquisas capturam movimentos temporais. Estes são assuntos que requerem mais atenção e eu espero que consiga elaborar um texto sobre isso nos próximos dias.
Também pretendo voltar para aplicar a este contexto uma ideia que levantei anteriormente neste post. Falava naquele momento sobre a ideia de memória e cognição distribuída e gostaria de tentar aplicar essa essa reflexão ao contexto da disputa eleitoral. Tentarei produzir isso durante o fim de semana.
Forte abraço e vote consciente contra o avanço da extrema direita.
G.