Sinapse

Navios de guerra, computadores e mentes

Sabemos que as ciências cognitivas têm um passado sombrio ancorado nas pesquisas militares do final do século passado. Uma de suas ciências subsidiárias, a cibernética, tem sua origem ocidental nas chamadas Macy Conferences, cujo problema central, à época, era investigar a causalidade circular [¹]. Dentre os caras que integraram essas conferências, destaque para o matemático Nobert Wiener, que contribuíra com os EUA durante a Segunda Guerra Mundial e cunhou o nome "cibernética".

Mas isso não foi apenas uma nota de rodapé da história. Isso foi (ou é) um programa consistente, com metas e objetivos bem delineados.

Neste momento, tenho lido o livro Cognition in the Wild, escrito em 1995 por um cara chamado Edwin Hutchins. O camarada era psicólogo do Departamento Naval e se propôs a adotar uma perspectiva de cognição situada. Essa perspectiva consistia em uma visão quase antropológica da cognição, uma forma de observar a cognição em seu estado bruto original. Seu objeto de estudos: um navio de guerra da marinha estadunidense.

Hutchins entrou no navio como civil, acompanhou a cabine do navegador e investigou como a tripulação conseguia tomar decisões coordenadas. Devemos considerar que, realmente, o objetivo é audacioso: temos o capitão e sua equipe próxima, o time que opera a navegação e o pessoal da maquinaria, para citar alguns grupos, além da hierarquia militar que atravessa todos eles. O que o autor tentou mostrar é que existe um processo cognitivo que é distribuído (ele se refere a isso como computação, ou seja, a entrada de um dado, o processamento pela unidade responsável e a saída do dado processado, passando por toda cadeia de comando). Isso significa que não apenas as pessoas estão participando do processo, mas todos os artefatos disponíveis no navio, instrumentos de medida e papeis de navegação estão contribuindo para o resultado do sistema. Em outras palavras, há uma propagação do estado representacional por toda a cadeia.

O autor descreve, portanto, três dimensões distintas para a cognição distribuída: (i) a dimensão social (entre indivíduos do um grupo qualquer), (ii) a dimensão material (entre pessoas e artefatos, que não são meros auxílios, mas partes do processo computacional), e (iii) a dimensão temporal (resultados de processos passados ficam sedimentados em ferramentas, leiautes e rotinas, condicionando a cognição presente).

A premissa de Hutchins difere da hipótese de Clark e Chalmers (1998) sobre a mente estendida. Clark e Chalmers constroem seu argumento em torno de uma pequena anedota, conhecida na literatura como "caderno de Otto": imagine que o jovem Otto faça anotações em seu caderno; seu caderno é parte da sua mente, pois apoia sua memória. Este não é o caso para Hutchins. Ele parte do sistema (o navio de guerra) na busca de investigar o processo de cognição distribuída.

Em tempos de malucos gritando "corra que a superinteligência vem aí!", é possível observar uma certa continuidade do programa. A primeira constatação, talvez, é que as redes sociais operam como verdadeiras memórias coletivas, construídas com uma narração muito particular de mundo (em Memória (2018), Izquierdo recorda que somos o que lembramos, mas também o que decidimos esquecer). A IA generativa, por outro lado, nos responde com dados e informações que nós produzimos, participando do processo cognitivo.

O fato é que o ambiente social e tecnológico de nossa época parece estruturado substancialmente em ideias antigas, com propósitos obscuros (ou claros suficientes para ofuscar). Quando os chinenes implementam uma olimpíada de robôs, o objetivo não é outro senão testar os limites físicos e operacionais da maquinaria de guerra. Robôs não praticam esporte por diversão ou para manter a boa forma. Praticam porque alguém determina que pratiquem, como soldados respondendo aos senhores da guerra.

Enfim, tempos (não tão) modernos.

G.


[¹] Falaremos em outro momento sobre o papel da URSS e o trabalho de Alexandr Bogdanov.