Sinapse

[OFF TOPIC] As três mortes de uma pessoa

NOTA: Este pode ser um texto sensível para algumas pessoas e se por acaso você se sentir mal ao tratar deste assunto, por favor, procure ajuda especializada.

Um provérbio existencialista moderno ensina que toda pessoa morre ao menos três vezes. Primeiro, quando para de respirar e a vida se encerra. Segundo, quando seu corpo físico é enterrado ou cremado. Por fim, quando sua memória é esquecida.

A primeira morte, biológica, é certa e inevitável. A vida contém a morte assim como a morte contém a vida. Em sua Harmonia, Schoenberg define o tempo como elemento de separação fundamental entre vida e morte. Daí a célebre cena do Cavaleiro enfrentando a Morte em uma partida de xadrez no filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957).

A segunda morte é cerimonial. Ela encerra um rito religioso, uma prática social ou um costume cultural. O corpo físico é enterrado ou cremado. As memórias são celebradas. Ritos fúnebres são realizados de acordo com a cultura. Em algumas comunidades, música e dança são práticas comuns; em outras, o choro é obrigatório. A antropologia das emoções contribui para compreender as diferentes expressões de luto (Le Breton, 2019). Há certo procedimento formal em sociedades organizadas, o que inclui o reconhecimento legal do falecimento de acordo com a jurisdição. A dimensão cerimonial da morte não se confunde com a morte biológica e assume contornos sociais de acordo com a cultura em que está inserida.

A terceira morte, por fim, é o esquecimento. Depois que o coração parou de bater e que o corpo foi enterrado, o esquecimento age sobre aqueles que ficaram eliminando as memórias daqueles que se foram. É bastante óbvio que a memória de artistas, políticos e outras pessoas famosas tem uma tolerância maior ao esquecimento. No entanto, pessoas comuns podem estar sujeitas à memória daqueles com quem conviveram em vida de forma mais restrita.

Eu acredito que esse provérbio seja significativo em muitos sentidos. Em primeiro lugar, porque define alguns pressupostos básicos como finitude e acaso. Em segundo lugar, porque coloca o tempo no centro da experiência e do esquecimento. Por fim, e mais sútil, porque sugere que o sentido da vida esteja no arranjo que construímos com outras pessoas, nas redes de memórias.

Qualquer dia espero voltar aqui para discutir a memória persistida na nuvem... :)